Pode parecer uma pergunta estranha, mas ela é mais importante do que parece: a sua fazenda está rendendo mais do que a Selic?
A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela serve como referência para todas as outras taxas de crédito e investimento. Quando você aplica seu dinheiro em um CDB, em um Tesouro Direto ou em outros investimentos de renda fixa, é a Selic que orienta o quanto esses investimentos vão render.
Ou seja: ela é a régua mínima de comparação para qualquer negócio. Se você tem R$ 1 milhão investido na fazenda, o mínimo que você deveria esperar de retorno é o equivalente ao que teria ganhado com esse mesmo dinheiro investido num ativo seguro, líquido e de baixo risco — como o Tesouro Selic.
Mas, ao longo dos anos, percebi que muitos produtores rurais não comparam o rendimento de suas fazendas com o rendimento da Selic — e acabam tomando decisões com base em intuição, tradição ou no saldo positivo da conta bancária ao final da safra.
Mas o mundo real dos negócios e investimentos funciona de outra forma. E se queremos tratar a fazenda como um negócio de verdade, precisamos aprender com isso.
E aqui está o ponto central que gera a principal reflexão e tema deste texto: a sua fazenda está rendendo mais do que a Selic? Se não estiver, por que manter o dinheiro investido nela?
Para analisar, vamos colocar alguns números na conversa
Entre 2022 e 2024, a Selic líquida de impostos chegou a ultrapassar 7% ao ano, chegando, em alguns momentos, a 11,9% líquidos. Isso significa que um investimento simples, em renda fixa, rendeu mais de R$ 100 mil ao ano para cada R$ 1 milhão investido, com risco baixo.
Agora olhe para os números da sua fazenda. O quanto ela retornou em relação ao capital total investido? Incluindo o valor da terra, das máquinas, dos insumos estocados, do gado, das construções e das benfeitorias?
Se a resposta for algo como 4%, 5% ou mesmo 6% ao ano, então talvez o capital esteja mal alocado.
Todas as fazendas, assim como todos os negócios, possuem riscos. E não há nada de errado com isso. O problema é quando estes riscos não são recompensados.
Se você opta por correr riscos, se expõe à todas as incertezas da produção e do mercado, espera-se que você seja recompensado por isso. E essa recompensa é medida pelo quanto você ganha a mais do que uma opção de investimento sem riscos, como o Tesouro Selic.
Portanto, se o Tesouro Selic, rendeu 10% e a sua fazenda rendeu 7% em algum determinado ano, este foi um ano que os riscos não foram recompensados.
E se essa situação se repete em vários anos, devemos nos questionar se realmente está fazendo sentido manter o dinheiro investido na fazenda.
É preciso realizar este tipo de comparação e análise, pois do contrário não vamos conseguir sequer pensar em alternativas para otimizar e melhorar a rentabilidade da fazenda.
Aqui está uma das grandes falhas da gestão rural tradicional: não comparar o retorno da fazenda com outras alternativas reais de investimento. Ao fazer isso, o produtor perde a noção de oportunidade. E, pior ainda, pode acreditar que está indo bem quando, na verdade, poderia estar ganhando mais — e com menos risco! — em outro lugar.
Fazenda não é só produção. É investimento. É o patrimônio de alguém que está investido lá.
E como todo investimento, deve ser avaliado com base no retorno proporcional ao risco assumido e na alternativa que está sendo deixada de lado ao optar por manter o dinheiro investido na fazenda.
Uma fazenda lida com clima, mercado, logística, pragas, política, dólar e uma série de outros fatores fora do nosso controle. Se o retorno for igual ou menor do que o da renda fixa, então não há racionalidade econômica que justifique manter o capital ali.
Investir em algo mais arriscado deve ser compensado com uma chance real de retorno superior. Caso contrário, trata-se de um mau negócio — mesmo que ele seja verde, bonito, e que esteja na família há gerações.
Bom, até aqui parece que este texto foi uma condenação sobre as atividades produtivas. Mas não é bem assim, pois existem muitas fazendas com rentabilidades excelentes.
O objetivo deste texto é te orientar sobre essa análise que poucos produtores fazem e que deveriam estar fazendo.
E para isso, devemos seguir as seguintes etapas:
1) Comece fazendo as contas e encontrando o lucro líquido e o patrimônio líquido da fazenda no ano;
2) Calcule o ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) ou o ROIC (Retorno sobre o Capital Investido) da sua fazenda. Compare esse número com a Selic líquida de impostos do mesmo ano. E veja o que os dados te dizem;
Se o retorno estiver abaixo da Selic no ano calculado, vai ser uma sinalização para atenção, mas ainda não será motivo para fazer alguma mudança brusca, pois vão existir anos que os retornos serão menores mesmo. Afinal, faz parte do risco.
Mas, se esta situação ficar se repetindo em vários anos e, em longo prazo, a fazenda não estiver rendendo mais que a Selic líquida de impostos, vale à pena revisar o modelo produtivo, os custos, os investimentos e até mesmo a estratégia de crescimento. Às vezes, o problema não está na produção, mas no volume de capital parado ou mal alocado.
Algo que você deveria se perguntar com frequência é: “Se a minha fazenda fosse uma aplicação financeira, eu colocaria mais dinheiro nela?”
Essa pode ser relevadora. Administrar bem uma fazenda não é só colher bem. É alocar bem o capital, o tempo e a energia. E isso exige análise, comparação e coragem para ajustar o rumo quando necessário.
No fim das contas, lucro é bom — mas retorno consistente é o verdadeiro sinal de que sua fazenda está no caminho certo.
Se quiser saber como calcular o retorno real da sua fazenda e compará-lo com a Selic, entre em contato. Posso te ajudar com isso.