No dia em que a Seleção Brasileira enfrenta o Haiti pela Copa do Mundo, nesta sexta-feira (19), a pré-campanha ao governo do Paraná também veste camisa amarela: Sergio Moro tenta segurar a liderança, Sandro Alex aposta no passe de Ratinho Junior, Requião Filho busca o voto de oposição e Rafael Greca prepara a largada do MDB.
No dia em que o Brasil enfrenta o Haiti pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo, às 21h30, na Filadélfia, a política paranaense também entra em campo com uniforme verde-amarelo e placar indefinido. A partida da Seleção mobiliza audiência, redes sociais, comércio, bares e conversas de família; a disputa pelo Palácio Iguaçu mobiliza os mesmos sentimentos, só que com menos bola e mais cálculo eleitoral.
A imagem de destaque escolhida pelo Blog do Esmael, uma paródia da velha revista MAD dos anos 1980, acerta o espírito da sexta-feira (19): quatro pré-candidatos com camisa amarela, caricatura política e uma bola grande demais para todos dominarem ao mesmo tempo. A piada visual tem fundo real. Moro, Requião Filho, Greca e Sandro Alex disputam não apenas votos, mas símbolos: patriotismo, Paraná, legado de governo, oposição e lembrança afetiva do eleitor.
Sergio Moro (PL) entra nessa rodada como o pré-candidato que aparece à frente nas pesquisas. O Paraná Pesquisas divulgado em junho colocou Moro com 42,3%, Requião Filho (PDT) com 19,9%, Rafael Greca (MDB) com 13,9% e Sandro Alex (PSD) com 10,7% no cenário estimulado com os quatro principais nomes. O levantamento ouviu 1.500 eleitores entre 7 e 9 de junho, tem margem de erro de 2,6 pontos percentuais e registro PR-06978/2026.
A vantagem de Moro, porém, não resolve a eleição. O senador tenta nacionalizar a disputa com a marca da Lava Jato, o apoio de Flávio Bolsonaro e o discurso de segurança, corrupção e antipetismo. O lançamento de sua pré-candidatura, em Curitiba, no dia 29 de maio, reuniu Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros e transformou o palanque paranaense em peça da engrenagem nacional da direita.
O problema é que Moro também tenta disputar a herança de Ratinho Junior, e essa bola tem dono no Palácio Iguaçu. O PSD e Ratinho Junior acionaram a Justiça Eleitoral na quinta-feira (18) para pedir que Moro e o PL deixem de usar a imagem do governador em materiais e eventos de pré-campanha, sob pena de multa. A ação acusa a pré-campanha de criar uma falsa percepção de alinhamento entre Moro e Ratinho Junior, que declarou apoio a Sandro Alex.
Sandro Alex joga como candidato oficial da continuidade. Ex-secretário de Infraestrutura e Logística, ele se apresenta como integrante do time de Ratinho Junior e usa a linguagem de obra, rodovia, ponte e logística para tentar transformar governo bem avaliado em voto. Ele vem chamando a própria função no governo de “zagueiro” e admite que a indicação para disputar a sucessão foi surpresa.
A frase mais reveladora de Sandro Alex liga diretamente a eleição à Copa. Ele disse que a população “só não está mais atenta ainda por causa da Copa do Mundo” e reconheceu que muita gente ainda não sabe que Ratinho Junior tem um pré-candidato chamado Sandro Alex. Traduzindo para o eleitor médio: a bola da Seleção ajuda a esconder a largada tardia do candidato do PSD, mas também reduz o tempo disponível para transformar o carimbo de Ratinho Junior em nome conhecido.
Quando o apoio de Ratinho Junior aparece na pergunta, Sandro Alex melhora de posição. Pesquisa da IRG Pesquisas divulgada na segunda-feira (15) mostrou Moro com 39,1% quando associado a Flávio Bolsonaro, Sandro Alex com 27,5% quando associado a Ratinho Junior e Requião Filho com 20,8% quando associado a Lula. O levantamento ouviu 1.000 eleitores entre 10 e 13 de junho, tem margem de erro de 3,1 pontos percentuais e registro PR-07149/2026.
Requião Filho tenta jogar em outra faixa do campo. O deputado estadual do PDT busca transformar a eleição numa cobrança contra privatizações, pedágios, Copel, Sanepar, saúde pública e modelo de desenvolvimento do governo Ratinho Junior. O pedetista acusa o atual governo de “trambique” e afirma que não vai negociar cargos, numa sinalização de que pretende ocupar o espaço de oposição programática, não apenas a vaga de anti-Moro.
A dificuldade de Requião Filho é furar a fronteira da esquerda tradicional sem perder o apoio de Lula e do campo progressista. Com Lula no enunciado da pesquisa IRG, ele chega a 20,8%, mas ainda fica atrás de Sandro Alex quando o nome do candidato do PSD aparece colado a Ratinho Junior. Isso mostra que o pedetista tem palanque nacional, memória política e discurso de enfrentamento, mas precisa converter indignação em maioria social no interior, na Região Metropolitana de Curitiba e no eleitor que rejeita tanto o bolsonarismo quanto o governo estadual.
Rafael Greca chega à sexta-feira (19) como o jogador que ameaça virar o jogo fora da bola. O ex-prefeito de Curitiba marcou para amanhã, sábado (20), das 9h às 13h, na Sociedade Thalia, o lançamento de sua pré-candidatura ao governo pelo MDB. Greca deixou o governo Ratinho Junior e o PSD para trilhar caminho próprio, o que abriu uma rachadura no campo governista antes mesmo da campanha oficial.
O lançamento de Greca interessa a todos os adversários. Para Moro, Greca dividido com Sandro Alex ajuda a fragmentar o eleitorado que poderia se abrigar sob Ratinho Junior. Para Sandro Alex, Greca é o risco de o campo governista entrar em campo com dois atacantes correndo para lados diferentes. Para Requião Filho, Greca pode dividir o centro e empurrar parte do eleitorado anti-Moro para uma escolha útil no segundo turno.
A pré-campanha de Greca também tem seu próprio paradoxo. Ele tem recall administrativo em Curitiba, linguagem popular, teatralidade e nome conhecido, mas precisa provar que consegue sair da capital e ganhar corpo estadual. O próprio Blog do Esmael já registrou que o desafio do MDB é transformar nostalgia, lembrança administrativa e nome conhecido em aliança real, tempo de televisão, palanques municipais e presença fora de Curitiba.
A Copa ajuda a entender a sucessão paranaense porque ela muda o foco do eleitor. Durante Brasil x Haiti, o eleitor vai olhar para Ancelotti, Vini Jr., resultado, classificação e meme. Depois do apito final, os pré-candidatos voltam ao gramado político com seus problemas intactos: Moro precisa impedir que a liderança vire teto; Sandro Alex precisa virar pessoa conhecida antes de virar candidato competitivo; Requião Filho precisa ampliar a oposição para além da bolha progressista; Greca precisa demonstrar que não será apenas peça de negociação.
A paródia da MAD funciona porque a eleição paranaense está com cara de caricatura, mas o conflito é concreto. Todos vestem camisa amarela na arte, mas cada um tenta vender uma seleção diferente ao eleitor. Moro oferece a seleção do bolsonarismo com Lava Jato. Sandro Alex oferece a seleção de Ratinho Junior com obras e continuidade. Requião Filho oferece a seleção da oposição com Lula e crítica às privatizações. Greca oferece a seleção do MDB com Curitiba, memória administrativa e ambição própria.
A sexta-feira (19) será da Seleção Brasileira. O sábado (20) será de Greca no Thalia. A semana seguinte será da Justiça Eleitoral, das pesquisas, das redes sociais e da tentativa de cada pré-candidato de roubar a cena antes que a bola volte a rolar. No Paraná, a Copa dura 90 minutos; a disputa pelo Palácio Iguaçu vai até outubro, com prorrogação possível no segundo turno.