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A gente fala em Master. O povo, em unha encravada
A gente fala em Master. O povo, em unha encravada
Por Administrador
Publicado em 16/03/2026 07:42
Opinião
A gente fala em Master. O povo, em unha encravada

Alceu A. Sperança

 

Lulistas e bolsonaristas se agridem no Caso Master, mesmo os dois lados envolvidos até o pescoço com o tal do Vorcaro, que até recentemente ninguém conhecia, mas na surdina distribuía migalhas do que roubava para os dois lados, sempre em meio a festas, muita alegria e cumplicidade.

Agora mesmo, nas redes sociais, a gritaria é grande. Lulistas alegam que Vorcaro é cria de Bolsonaro: o ex-presidente teria dado riqueza ao banqueiro trapaceiro e recebido em troca, por meio do “pastor” Fabiano Zettel, cunhado do Vorca, R$ 5 milhões para as campanhas de Bolsonaro a presidente e Tarcísio de Freitas a governador de São Paulo, em 2022.

Por sua vez, os bolsonaristas alegam que em dezembro de 2024 o Vorca foi levado ao Palácio do Planalto pelo ex-ministro petista Guido Mantega para uma reunião fora da agenda oficial. Não se sabe se o que trataram rendeu mais que aqueles R$ 5 milhões.

Em meio à gritaria e amor fanático a políticos de estimação, tem-se a impressão de que o único assunto que interessa ao povo brasileiro é o Caso Master e o berreiro em torno desse assunto. Ledo engano.

 

Lama lambe togas

Quem perde tempo com redes sociais foca as mentes nessas baixarias do alto, mas o povo tem preocupações diferentes e nem sabe direito o que é o Caso Master: quem roubou o quê, de quem e de que jeito?

Então, o quê, de fato, preocupa a arraia miúda, o exausto cidadão que trabalha em dupla jornada e depois leva bronca em casa por tomar uma cachaça com os amigos no fim de cada expediente?

Segundo pesquisa do Datafolha, a corrupção é apenas a quarta maior preocupação dos brasileiros em geral. A maior é com a saúde, que atormenta 21%. A segunda é a insegurança, que tira o sono de 19% dos consultados. Terceira, a economia, ou seja, a falta de grana, que assombra 11%.

A corrupção, ou seja, a desonestidade dos líderes políticos ou dos gestores que eles avalizam, aparece com 9%, empatada com a educação, ou seja, com a falta, deficiência ou baixa qualidade dela.

É certo, além das pesquisas, que 100% dos preocupados com saúde, segurança etc também se preocupam com todo o resto. Ou seja: quem reclama da insegurança também sofre com o adoecimento da população e a roubalheira dos governantes, parlamentares e agora com lama lambendo as barras de togas pelo país afora.

Assustador é que alcance até o Supremo, onde juízes outrora invisíveis e inatacáveis são hoje astros de alas políticas, louvados ou insultados toda vez que prendem, soltam, mandam investigar ou livram preciosas caras.

 

A pobreza é desumana

É possível que 100% dos entrevistados nem saibam que há muito mais com o que se preocupar no Brasil. Ser pobre, por exemplo, não é só ter menos ou pouco dinheiro para pagar as contas. É uma condenação extremamente cruel a uma vida abaixo do humanamente necessário.

Uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (SP) apontou que a pobreza afeta o desenvolvimento motor dos bebês já aos seis meses de vida e essa perda vai ser um freio de mão puxado pelo resto dela.

As consequências disso vão aparecer com força já nos períodos pré-escolar e escolar. Segundo a professora Eloisa Tudella, que orientou a pesquisa, atrasos motores leves no primeiro ano de vida podem influenciar o desenvolvimento global e se associar a problemas comportamentais na idade escolar, incluindo o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Enquanto alguém nascer e viver pobre não se pode dizer que haja bom governo ou governante em um país. Haver crianças pobres é um crime indesculpável.

Há mais coisas horríveis a considerar. Quem escapa da pobreza e consegue uma vida cuja maior preocupação é o Caso Master levará um susto ao tomar conhecimento de outra pesquisa inquietante: da mesma forma que o vício em jogatina, drogas e álcool, o uso frenético das redes sociais pode perturbar o juízo.

 

Vítimas de robôs malandros

Redes sociais podem afetar seriamente o cérebro, avisa o especialista em saúde mental Lawrence Robinson, criador do HelpGuide, site associado à Harvard que dá dicas de prevenção às arapucas que danificam a consciência e levam ao (arreda!) su-i-cí-di-o.

Como a gente sabe onde pisa e não se deixa dominar pelos robôs malandros que manipulam as redes sociais via algoritmos, vamos investigar mais um pouco esse rol de preocupações. Assim vamos descobrir um problema gravíssimo, mas que incomodou só 3% dos entrevistados pelo Datafolha: a fome.

Alguns de estômago cheio e sem coração festejaram quando a ONU declarou que o Brasil saiu do mapa da fome. Deve ter pulado fora do Atlas, pois muita gente no Brasil passa fome, um mal-estar que assola 19 milhões de patrícios irmãos distribuídos por todas as regiões do país.

Ou patrícias irmãs, pois a maioria é de mulheres e pessoas negras que dificilmente são alcançadas pelos pesquisadores dos Data isso ou aquilo. Haver fome e pobreza é um atestado de incompetência a todos os governantes. Daqui e do mundo. (Ilustração: montagem)

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